05/02/2010

Derretendo

Eu costumava a suportar bem os verões, adorava mesmo a época, mas esse ano ou estou doente ou o calor está demais. Lembro de já ter pego quarenta graus aqui muitos anos atrás e não parecer tão ruim. Acho que desacostumamos do calor mesmo, depois de um inverno tão ferrado como este último.
Meio-dia e o cérebro começa a derreter. Praguejo contra o ventilador velho que já não funciona direito e saio pra almoçar num ar condicionado. Isto é, num lugar qualquer que seja refrigerado. Entro num supermercado e pego um prato de coxinhas e uma água com gelo até a borda do copo. Fico lá comendo lentamente apenas para aproveitar ao máximo o ar gelado do local.
Tudo mais ou menos bem, até resolver ir no banheiro. Nunca vi um lugar tão lotado. Nem tão sujo. Todos os mictórios ocupados e, pra piorar, um sujeito de tatuagens e topete no cabelo faz poses na frente do espelho pra se arrumar. É a era do metrossexualismo, quer a gente queira ou não.
Depois de mil poses e beicinhos e ajeitadas no topete ele desocupa o local e posso lavar meu rosto um pouco. Não adianta. O calor persiste e resolvo desistir de usar o banheiro que não desocupa e volto para o ar condicionado.
Fico lá zanzando a esmo, até que já passei três vezes por cada seção e sei que é hora de ir. Venho zanzando pela Lauro Linhares acompanhando as placas dos carros, tentando lembrar fatos que coincidam com as terminações. Vejo um carro terminando nos números 0820, e depois de muito forçar a mente me lembro, agosto de 1920, nascimento de Charles Bukowski.
O primeiro foi fácil, olho pela estrada em busca de outro número que me chame atenção. Um carro azul desses que custa cem mil na concessionária passa por mim com a placa 1185. Esse era difícil.
Eu sentia o sol queimando minha cabeça enquanto eu tentava com afinco lembrar uma data que encaixasse. Fico acompanhando o carro que vai no engarrafamento, como se isso pudesse me ajudar. Quando estou quase desistindo eu lembro, novembro de 1985, primeira publicação de Calvin e Haroldo, minha tira de jornal favorita.
Estou lá me felicitando pela lembrança quando vejo o sujeito motorista do carrão jogando seu lixo pra fora da janela. Canalha, porco!
Vejo o boné do motorista e logo imagino um adolescente e me flagro pensando na decadência dos jovens. Daí ele joga novamente seu lixo pela janela e reparo que é um senhor lá pelos setenta anos. Francamente, tanto dinheiro para comprar um carro desses, mas tão pouca educação. Doze palavrões depois e eu volto a andar pra casa.

05/09/2004

9g-

De tudo que aconteceu, uma coisa posso afirmar com certeza: não saiu ilesa daqueles acontecimentos madame Misancena.
--- Mentira --- dirão os céticos.
A eles responderei sacando minha espada e bradando do alto de meu cavalo: “Verdade!”.
--- Mas você não tem cavalo nem espada --- dirão os racionalistas.
A eles responderei: “Esperem eu ter uma que vocês verão, incrédulos!”
O fato é que no dia 14 de setembro de 2004 vi o sargento Mikomski passar como um foguete pelo boteco do português e entrar branco na delegacia.
--- “Madame Misancena está morta” --- disse ele.
Logo mais de cinqüenta policiais já se dirigiam ao La Patusca, requintado bordel da cidade nos limites entre a zona de tolerância e a civilização moralizada. É claro que o distanciamento era meramente geográfico, uma vez que os freqüentadores do inferninho vinham da afamada zona moralizada.
Logo em frente ao rendez-vous uma turba se formava. A multidão lamentava e lastimava, mas ninguém tinha coragem de entrar. O valioso sargento Mikomski foi eleito pela multidão para ser o primeiro que entraria no recinto, pois muito embora fosse ele que havia dado a todos a notícia, ele mesmo não fora no local conferir, soubera apenas por intermédio de uns bebuns que passavam pela rua indo pra casa ao meio-dia.
O dia estava quente. Quente demais até mesmo para o verão. Jovens virgens desmaiavam no meio da rua, sufocadas pelo calor do dia e da multidão. Um cachorro de raça meio vira-latas mijara no chão e rolava no próprio mijo para se refrescar. Até que era uma boa idéia, pensei. Embora o cachorro fosse macho, seu dono a chamava de Branquinha. Fatos inexplicáveis que só se encontra no mundo real e que não se deve incluir na literatura por ser muito pouco realista. Tirei meu bloco de anotações e anotei com cuidado o alerta de que quando escrevesse sobre este fato deveria omitir o nome do cachorro de meu romance, pois de outro forma perderia seu realismo e me seria negado o reconhecimento como grande escritor. Há de se fazer estes pequenos sacrifícios quando se caminha rumo à grandeza, pensei me consolando.
Depois de muito barulho e pouca ação, sargento Mikomski resolveu honrar as calças que vestia e entrou no recinto. Passou pela porta de madeira velha, fechando-a atrás de si e desaparecendo da multidão.
Lá dentro, demorou dez ou vinte segundos parado atrás da porta até a vista se acostumar com a escuridão. Uma sala com decoração de boate dos anos 70 e cheiro de mofo e cerveja azeda foi lentamente surgindo aos seus sentidos. E não era à toa, uma vez que o La Patusca fora fundado em 72 pela falecida mãe de madame Misancena, e desde então nunca mudara sua decoração ou recebera uma faxina. Dona Cleonice, durante o tempo que dirigira o local, ficara conhecida pelo apelido de Cleo dos chulapas. Nunca entendi tal apelido, de forma que decidi que esse era outro fato que eu deveria omitir, refreando-me para dizer apenas que com a morte da mãe ano passado, madame Misancena se tornara a mais jovem cafetina da cidade, com meros 18 anos.
Com a vista mais adaptada à escuridão, Mikomski atravessou a sala de dança se dirigindo aos quartos do local que tão bem ele já conhecia. Foi direto nos aposentos de madame Misancena, entrando pela porta entreaberta e parando atrás das cortinas que separavam o leito de uma espécie de ante-sala do quarto.
Sacou a arma, posicionado-se esticado atrás da cortina e lentamente se esgueirando para espiar o interior. Madame Misancena, com seu rosto oriental e as vestes de gueixa estava deitada na cama, com as pernas abertas, o roupão aberto e os seios à mostra apontando firmes para o lustre.
Ficou um ou dois minutos naquela posição. Suava frio, com medo que o assassino estivesse lá dentro. Foi quando a ouviu soluçar e entrou correndo no recinto, esquecendo-se de sua vida ou tudo o quanto mais fosse importante. Ela estava viva.
Mikomski pegou a japonesa embriagada no colo e a levou para a rua, onde a multidão em festa o saudou. Mais tarde, na mesma noite, o prefeito o condecorou em cerimônia oficial. E tudo voltou a ser como era antes.
Naquela noite, a cidade inteira não dormiu em festa. E a bebedeira foi tanta que acabei gastando todo o dinheiro que durante anos eu economizara tendo em vista a compra de um cavalo, uma espada e as vestes plumosas de um dragão da independência. Agora eu teria que desistir de tudo. Era o fim de um longo sonho.