16/06/2010

O herói Lee Oswald

Eu me lembro de um dos meus livros favoritos na adolescência em que o protagonista precisa decidir se mata ou não um candidato a presidente, sabendo que aquele sujeito, se eleito, levará o mundo a uma guerra nuclear. O dilema é interessante, mas só muito tempo depois percebi que vai muito além da ficção, e tenho certeza mesmo que se inspirou no assassinato de Kennedy.
Kennedy, idolatrado pela mídia como um ídolo repleto de mulheres, era um maníaco.Em 1962, durante a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, Kennedy perguntou a seus assessores o que aconteceria se a crise progredisse para um conflito nuclear com os russos. Os ministros militares, aflitos, explicaram as consequências e a devastação decorrentes de tal guerra. Kennedy, impassível, apenas perguntou quem ganharia, e diante da resposta de que o mundo sairia arrasado, mas seu país ganharia a guerra, ainda que também devastado, ele foi implacável e mandou que atacassem. Coube ao seu ministro da defesa, McNamara, dissuadi-lo da guerra e convencer o presidente a uma saída negociada, que por fim ocorreu. Ali o mundo esteve por um fio.
Mas a beligerância de Kennedy não era somente contra os russos. Segundo o jornalista Flávio Tavares, nosso presidente brasileiro estava na Itália quando foi chamado por Kennedy para uma conversa particular, onde Kennedy mostrou uma mapa mundial com alvos no mundo inteiro para um ataque nuclear imediato, se necessário, num grosseiro exercício de intimidação contra outro Estado, contra nós, mais exatamente.
Mais dia, menos dia, e Kennedy, obcecado como era pela idéia, iniciaria uma guerra nuclear. Foi Lee Oswald quem salvou o mundo naquele 22 de novembro de 1963, ao explodir os miolos de Kennedy num desfile em carro aberto. Devemos a Lee Oswald o mundo como é hoje, sem imensas áreas devastadas e isoladas pela radiação, inverno nuclear etc. Dois dias depois, Lee Oswald foi também assassinado, por um empresário, que morreu alguns anos depois de câncer, um carrossel de mortes que inspirou as mais variadas teorias conspiratórias.
O pior de tudo foi que, apesar de Oswald, a besta da guerra logo trocou uma cabeça por outra. Foi o sucessor de Kennedy, Lyndon Johnson, quem iniciou a guerra do Vietnã e patrocinou o golpe militar que derrubou o governo brasileiro eleito para instaurar duas décadas de ditadura. Ditadura que ainda hoje tenta voltar, agora inspirada em golpes judiciais, como o que derrubou Zelaya, em Honduras. Há coisas que nunca mudam...

20/04/2010

Gritos

Eu sempre achei que quando a foice da morte finalmente encontrasse meu corpo e rasgasse minhas vísceras, poupando o mundo de minha presença, grafariam em minha tumba aquele grito que desde a infância instalou-se em minha memória e continua, desde então, lá, ecoando. É o grito de Lucélia Santos no filme baseado em história de Nelson Rodrigues chamado “Bonitinha, mas ordinária”: Cachorrãããããããããããoooo!!!
Aquele grito, dito por aquele rosto, naquela cena... algo inesquecível.
Mas outro dia meu bom amigo Olsen Jr. me mandou outro grito que acho que não vou esquecer nunca, também. Eu já tinha ouvido falar da preciosidade que corria a internet, mas confesso que se não fosse o grande cronista me enviá-lo, eu jamais o teria visto, por pura preguiça.
É uma coisa impressionante mesmo. Começa com o relato da Cidinha Campos digno de filmes de ação narrando a pressa com que veio subindo as escadas esbaforida para tomar a palavra na tribuna. Dito isso começa a elencar todos os crimes e processos contra alguém que acabara de se candidatar ao Tribunal de Contas. É o momento do constrangimento. Algo impressionante. Aquele plenário tumultuado cheio de vozes e murmúrios e barulhos vai se silenciando até se tornar um silêncio trágico, pesado, devastador. Um túmulo recheado de homens vivos, todos fuzilados pela metralhadora verbal dela.
Quando parece que ela vai abandonar o cenário dos corpos e baixar as armas, percebemos que ela apenas trocou o disparo de projéteis pela bomba. É possível ouvir o barulho vindo de longe, crescendo, ganhando força, até estourar e explodir a realidade com sua larga sonoridade: Canaaaaaaaaaalhaaaassss!!!!! Canaaaaaaaaaalhaaaassss!!!!!
É a experiência verbal, teatral, real, mais destruidora. É aquilo que todos sabem, que todos pensam, que todos querem dizer. Mas não é dito como um grito abafado, solitário, escondido no meio da multidão. É um grito que vai se construindo, se formando, se ampliando, até que todo o som do mundo parece recuar antes de irromper, como as águas do mar que recuam subitamente antes da violência devastadora do tsunami.
Eu sei, é claro, que deveria estar falando dos filmes de Hillary Scott ao invés de temas mais mórbidos, mas parece que esse período de abril concentra tanto agouros como o mês de agosto. Dia 19 é dia dos índios, massacrados quase totalmente. Dia 21 a morte de Tiradentes, Tancredo e Mark Twain. E no período de 19 a 21, o massacre de dois mil judeus em Lisboa, em 1506. Eta semana...