Andando pra lá e pra cá, por vezes, o sujeito acaba passando por algum aperto. O diabo da idéia foi se meter numa excursão lá pro interior do Pará e voltar achando que tudo bem se pegassem carona.
No primeiro dia ela só teve que levantar a blusa e mostrar os peitinhos e tudo transcorreu em paz. Foi uma bela carona, quase trezentos quilômetros e os dois, ela e o cara com óculos de aro fino, conseguiram sair do meio do nada empoeirado para chegar ao lugar nenhum cheio de pó. Fizeram feliz um motorista que há muito tempo não via peitinhos, principalmente peitinhos firmes como aqueles.
O casal estava preparado, carregava uma barraca iglu, isolantes térmicos, pão seco, meio quilo de castanhas e, ainda, biscoitinhos de soja e guaraná em pó. Com isso poderiam encarar qualquer coisa que viesse pela frente. Naquela noite ele tentou finalmente conseguir algum avanço com ela que fosse além dos beijinhos iniciais. Estavam viajando há muito tempo juntos e o companheirismo era grande. Some-se a isso que ele vira, pela primeira vez, os peitinhos dela nessa tarde, o que fez a felicidade não só do caminhoneiro, mas dele também.
Ela consentiu aos poucos com alguns beijinhos e permitiu umas apalpadas, mas ficou nisso. Disse que estava cansada, precisavam dormir e tal. Ele tinha certeza que se insistisse mais, conseguiria, mas tinham muita viagem pela frente e não quis apressar as coisas, quis curtir com calma a conquista inevitável. Já ela ficou feliz por não ter que queimar ainda naquela noite o papo de que eram amigos e tal e cortar o cara, o que azedaria a viagem.
No segundo dia foi cruel, andaram por horas a fio e nada de nenhum veículo passar. Chegaram por fim num boteco no meio do nada onde só havia o dono do local, completamente bêbado, que consentiu em dar uma carona a eles. No meio do caminho o cara parou e disse que só tocava adiante se ela lhe desse uma chupada. Depois de muita negociação o combinado ficou em uns beijos e amassos e a viagem continuou.
Armaram novamente a barraca perto da estrada naquela noite e ele achou que ia se dar bem, mas ela o dispensou dizendo que ficara meio traumatizada com o que ocorrera durante o dia. Ele sabia que era uma mistura irresistível de Marlon Brando com Woody Allen, de forma que ela certamente cairia por ele em breve, então aceitou.
E então, no terceiro dia, estavam finalmente chegando perto de uma cidade maior e conseguiram carona num caminhão de bóias-frias. O clima na traseira do caminhão pareceu tenso desde início. Aqueles pobres trabalhadores rurais, suados, cansados, com meses de trabalho escravo nas costas sem comer ninguém. Eram doze. Um deles sussurrou algo ao motorista e o caminhão parou.
O rapaz deu um pulo. A coisa estava indo longe demais, cada dia pior, era dever dele como homem defender a moça, para conquistá-la de vez:
- Ninguém toca nela, me ouviram? Ninguém vai tocar nela! Chega, acabou essa palhaçada! – bradou ele.
- Que isso, meu rapaz? Aqui a gente é respeitador, não ia fazer uma coisa dessas com uma moça, não, não é? – perguntou um dos trabalhadores aos demais.
- É isso aí! Queremos o viadinho de topete, o que parece o Marlon Brando.
Ela se afastou do caminhão, por pudor, e esperou sob a sombra de uma grande árvore enquanto os doze se revezavam sobre seu companheiro de viagem. Depois seguiram o rumo e nunca mais tocaram no assunto ou voltaram a se ver.
15/09/2010
02/09/2010
A arte da derrota
Eu parei de me interessar por futebol em algum lugar ali entre a infância e a adolescência, e boa parte da culpa era desse sujeito da escola.
Era um daqueles tipos insuportáveis, antipáticos, que ia para a educação física tagarelando sem parar, dizendo que era melhor, que podia jogar sozinho contra o outro time, mais capaz, que tinha feito escolinha no Avaí e por aí vai.
Ninguém suportava o sujeito.
Mas o que todo mundo odiava nele, mais que a tagarelice, era que mal começava o jogo e o sujeito ia perdendo a pose. Perdia as bolas, dava bicão pra longe, tomava sempre o drible pelo meio das pernas e, quando isso acontecia, ficava furioso, queria cair na porrada, partia pra cima dos outros pra tentar quebrar uma perna ou joelho na dividida.
É claro que o professor tentava acalmar e conter o cara, e dava uma, duas, sucessivas faltas. Foi aí que ele começou a apelar de vez e, antes mesmo do jogo começar, já começava a dizer que o juiz era ladrão, que estava em conluio com o outro time, que ele era vítima de um complô. Quando começava a levar cartão depois de dar socos no time adversário ele justificava: Tão vendo? Não disse que o juiz era ladrão?
Essa são coisas que não deveriam contaminar a visão que a gente tem do esporte, mas infelizmente vai desgastando. A gente começa associar o esporte com a sujeira e logo desanima. Passei para outras opções mais interessantes, como hockey no gelo, basquete, e, por fim, vôlei feminino, um esporte que é uma mistura de graça, elegância e desfile de modelos.
As décadas passam e a gente vai esquecendo e perdoando certas coisas e mal se lembra do que aconteceu nos campinhos de várzea da infância perdida nos anos 60. Outro dia o sujeito me aparece do nada, dizendo que queria reunir o pessoal para jogar outra vez, relembrar os velhos tempos.
Mal começa a partida e vêm a tona outra vez as memórias daquele tempo, só que numa versão piorada. O sujeito já quase idoso, misturando agora uma certa paranóia senil aos mesmos truques, a mesma violência contra adversários, a mesma tentativa vergonhosa de tentar ganhar através da calúnia ou no tapetão.
Mas se ele era o mesmo, ainda piorado, nós certamente não éramos. Há muito já havíamos deixado aquela infância que se deixa levar por maus perdedores. Um coisa é perder, algo que não é desonra, mas um exercício de superação moral, outra é apelar para a calúnia e agressão quando percebe a inevitabilidade da derrota. Mas agora nos tornamos adultos e os velhos golpes não colam mais.
Era um daqueles tipos insuportáveis, antipáticos, que ia para a educação física tagarelando sem parar, dizendo que era melhor, que podia jogar sozinho contra o outro time, mais capaz, que tinha feito escolinha no Avaí e por aí vai.
Ninguém suportava o sujeito.
Mas o que todo mundo odiava nele, mais que a tagarelice, era que mal começava o jogo e o sujeito ia perdendo a pose. Perdia as bolas, dava bicão pra longe, tomava sempre o drible pelo meio das pernas e, quando isso acontecia, ficava furioso, queria cair na porrada, partia pra cima dos outros pra tentar quebrar uma perna ou joelho na dividida.
É claro que o professor tentava acalmar e conter o cara, e dava uma, duas, sucessivas faltas. Foi aí que ele começou a apelar de vez e, antes mesmo do jogo começar, já começava a dizer que o juiz era ladrão, que estava em conluio com o outro time, que ele era vítima de um complô. Quando começava a levar cartão depois de dar socos no time adversário ele justificava: Tão vendo? Não disse que o juiz era ladrão?
Essa são coisas que não deveriam contaminar a visão que a gente tem do esporte, mas infelizmente vai desgastando. A gente começa associar o esporte com a sujeira e logo desanima. Passei para outras opções mais interessantes, como hockey no gelo, basquete, e, por fim, vôlei feminino, um esporte que é uma mistura de graça, elegância e desfile de modelos.
As décadas passam e a gente vai esquecendo e perdoando certas coisas e mal se lembra do que aconteceu nos campinhos de várzea da infância perdida nos anos 60. Outro dia o sujeito me aparece do nada, dizendo que queria reunir o pessoal para jogar outra vez, relembrar os velhos tempos.
Mal começa a partida e vêm a tona outra vez as memórias daquele tempo, só que numa versão piorada. O sujeito já quase idoso, misturando agora uma certa paranóia senil aos mesmos truques, a mesma violência contra adversários, a mesma tentativa vergonhosa de tentar ganhar através da calúnia ou no tapetão.
Mas se ele era o mesmo, ainda piorado, nós certamente não éramos. Há muito já havíamos deixado aquela infância que se deixa levar por maus perdedores. Um coisa é perder, algo que não é desonra, mas um exercício de superação moral, outra é apelar para a calúnia e agressão quando percebe a inevitabilidade da derrota. Mas agora nos tornamos adultos e os velhos golpes não colam mais.
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