O Bar
O que mais gosto no bar é a sensação de falsa solidão. Às vezes o bar tá carregado de gente se espremendo pelos corredores suarentos e vocês se sente completamente só lá dentro. Às vezes o bar está vazio, você bebendo sozinho, emborcando todas no ambiente escuro e parado, mas se sente como se estivesse em uma festa agitada onde você conhecesse todos por dentro.
É como um grande universo, pessoas que não percebem que estão sendo vigiadas e observadas. Tem aquele cara com jeito de fracassado no canto que fica olhando para a espuma do copo sem dizer uma palavra. Tem aquele outro obcecado com um assunto do trabalho que martelou sua cabeça o dia inteiro e não lhe dá sossego nem agora. Tem aquele outro arrependido, que se acha um imbecil, um idiota que acabou expulsando todos de sua vida e agora está só. Tem aquele outro que se apaixonou por uma garota com metade de sua idade e não pode pensar nela que chora, balbuciando apenas que ela é um buraco negro contra qual o espaço pode apenas se curvar.
Tem aquele outro cara alegre, que bebeu demais e ficou sociável demais, conversando com todo mundo em todos os cantos. Tem aquele outro que levou um livro para ler e não ser incomodado e finge que se concentra na leitura. Tem aquele garoto que precisa estudar para uma prova amanhã e parou ali para tomar uma cervejinha e relaxar. Tem aquele fumante de cachimbo que briga com o cigarro que não lhe apetece tanto quanto o seu fumo normal.
Lá no canto, naquele mesa, tem aquele outro que sentou-se de frente pra tevê e finge assistir ao jogo de futebol, muito embora odeie futebol. Tem aquele outro com um DVD de um filme de drogadição dos anos sessenta com trilha sonora do Pink Floyd. Tem aquele outro que quer ser escritor mas sabe que é uma carreira de fracassos. Tem aquele outro que queria montar uma banda de punk rock e veste umas roupas rasgadas, mas nunca foi punk.
Por fim tem o outro cara que fica só olhando as meninas que passam, tentando furar o vestido com os olhos ou adquirir o poder de ver através deles. Tem o cara que tenta conseguir algumas meninas mas já bebeu tanto que não consegue falar olhando para o rosto delas, apenas para o decote. Tem o cara que pensa como a vida teria sido se tivesse arranjado um emprego decente e se entupido de grana, sentado no mesmo banco daquele outro que pensa que deveria ter desistido de tudo de uma vez, ido morar nas ruas e viver selvagemente.
Passa dia e noite e o bar está sempre cheio de velhos sonhos e pesadelos.
10/11/2010
03/11/2010
Uma coisa e tanto
E então eu conseguia realmente me relaxar, libertar. Oxitocina adoçando minhas veias com uma estranha calma sem fôlego. Ela ficava rindo de mim com uma cara sacana e fingindo que não me entendia.
Eu posso dizer que tive sorte. Poucas pessoas tem a chance de fazer um acordo com a morte e não cumpri-lo. É claro que a ceifadora não deixou barato e me bateu como um cão esfarrapado, feridas de sarna à mostra e tudo o mais.
Mas ela compensava tudo. Ela tinha mania estranhas que me divertiam. Aquela coisa que ela fazia babando, por exemplo. Um longo fio de baba correndo pelo queixo, litros e litros de baba escorrendo pela boca. E eu olhava aquilo e ria satisfeito, sentindo-me agraciado.
Aí ela babava em mim, espalhando a baba, escorrendo baba em tudo, até mesmo no chão. Eu ria e dizia: não pare agora, não pare. E ela olhava pra mim, e ria, e fazia algo com os cabelos que até hoje não entendo o que era, mas a deixava parecida com a Rose McGowan, com direito a metralhadora na perna amputada e tudo.
Então ela botava uma música do Robert Johnson pra tocar, um disco de vinil velho e rachado em que apenas algumas músicas ainda tocavam. “Me and the devil” era a favorita dela, como se quisesse a qualquer momento confessar que fosse uma súcubus saída do meio de um filme ambientado no Haiti, como aquele da serpente e do arco-íris.
Aí eu ia até a vitrola e colocava uma música qualquer do Pink Floyd para me dar um tempo para respirar e alongar aquela misancene toda. E ela dizia que eu a fazia realmente feliz e eu fingia por um minuto acreditar, apenas para não cortar o clima do momento, enquanto “Paranoid Eyes” tocava.
Aí ela vinha pra cima de mim com aquele fio de baba à la Alexis Texas que corria pela casa toda e se alongava e ríamos e eu fechava os olhos ouvindo a música e sentia que, de alguma forma, o mundo não era o mundo, eu não era eu e nada era nada.
Acho que apaguei algumas vezes fazendo isso, e acordava com ela sentada, olhar sério. Um calafrio me vinha de imediato porque eu sabia que aquilo não era bom sinal, era a virada da maré, o preço amargo dos relacionamentos, quando a meia-noite passa e as pessoas começam a trocar segredos e dores e mágoas e traumas.
Eu não era bom com isso. Era essa a parte que me ferrava. Eu sabia que era só ficar sentado ali e concordar com ela e tudo que ela dissesse e então dizer que era tarde e tinha que ir embora e assim por diante. Mas de alguma forma a coisa não funcionava. A farsa caía naquela momento e eu nunca consegui me comunicar, sintonizar no mesmo nível de empatia. E tudo então acabava.
Eu posso dizer que tive sorte. Poucas pessoas tem a chance de fazer um acordo com a morte e não cumpri-lo. É claro que a ceifadora não deixou barato e me bateu como um cão esfarrapado, feridas de sarna à mostra e tudo o mais.
Mas ela compensava tudo. Ela tinha mania estranhas que me divertiam. Aquela coisa que ela fazia babando, por exemplo. Um longo fio de baba correndo pelo queixo, litros e litros de baba escorrendo pela boca. E eu olhava aquilo e ria satisfeito, sentindo-me agraciado.
Aí ela babava em mim, espalhando a baba, escorrendo baba em tudo, até mesmo no chão. Eu ria e dizia: não pare agora, não pare. E ela olhava pra mim, e ria, e fazia algo com os cabelos que até hoje não entendo o que era, mas a deixava parecida com a Rose McGowan, com direito a metralhadora na perna amputada e tudo.
Então ela botava uma música do Robert Johnson pra tocar, um disco de vinil velho e rachado em que apenas algumas músicas ainda tocavam. “Me and the devil” era a favorita dela, como se quisesse a qualquer momento confessar que fosse uma súcubus saída do meio de um filme ambientado no Haiti, como aquele da serpente e do arco-íris.
Aí eu ia até a vitrola e colocava uma música qualquer do Pink Floyd para me dar um tempo para respirar e alongar aquela misancene toda. E ela dizia que eu a fazia realmente feliz e eu fingia por um minuto acreditar, apenas para não cortar o clima do momento, enquanto “Paranoid Eyes” tocava.
Aí ela vinha pra cima de mim com aquele fio de baba à la Alexis Texas que corria pela casa toda e se alongava e ríamos e eu fechava os olhos ouvindo a música e sentia que, de alguma forma, o mundo não era o mundo, eu não era eu e nada era nada.
Acho que apaguei algumas vezes fazendo isso, e acordava com ela sentada, olhar sério. Um calafrio me vinha de imediato porque eu sabia que aquilo não era bom sinal, era a virada da maré, o preço amargo dos relacionamentos, quando a meia-noite passa e as pessoas começam a trocar segredos e dores e mágoas e traumas.
Eu não era bom com isso. Era essa a parte que me ferrava. Eu sabia que era só ficar sentado ali e concordar com ela e tudo que ela dissesse e então dizer que era tarde e tinha que ir embora e assim por diante. Mas de alguma forma a coisa não funcionava. A farsa caía naquela momento e eu nunca consegui me comunicar, sintonizar no mesmo nível de empatia. E tudo então acabava.
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