Nós escritores somos realmente grandes trouxas, os escritores homens, pois escritoras mulheres são mais espertas, como via de regra acontece com as mulheres.
O fato é que o escritor é facilmente seduzido por promessas vãs e mulheres perversas. É a desforra irônica do mundo que aquele que se dedica a perceber as nuances e minúcias e contradições da vida cotidiana acabe sendo vitimado por essa mesma gama de detalhes e incongruências.
Tinha esse escritor amigo meu que dizia que não conseguia largar a mulher porque ela o fazia sofrer como um cão. E sofrendo, ele se inspirava e escrevia mais. De forma que o dilema dele é que se largasse a mulher se tornaria um sujeito mais feliz e, com isso, um bloqueio lhe viria e pararia de escrever. A decisão é difícil e injusta, ninguém deveria ter que tomá-la, escolher entre sua profissão e uma vida de tormentos ou a liberdade que o impede de escrever, uma vitória insípida. Por fim fiquei feliz em saber que ele acabou com o sofrimento e terminou com ela. Embora, no fim das contas, ele realmente estava certo, porque nunca mais escreveu nada nestes anos desde então.
Já outro amigo era um trouxa com as loiras. Não podia ver uma loira que faria absolutamente qualquer coisa que ela pedisse. Colecionava na memória uma longa lista de mulheres pelas quais se apaixonara e extraía daí seu material de escrita.
O mais triste de todos, no entanto, caíra numa cilada. Casara-se com uma mulher cruel, vingativa, que procurava sabotar cada passo dele. Era triste visitá-los. Se ele guardava um uísque no armário para tomar numa ocasião especial, ela mudava de lugar, de forma que ele não encontrasse. Sua carteira com dinheiro, que ele normalmente deixava em cima de uma cômoda, ela, só por prazer perverso de atrapalhá-lo, movia sempre para um cabide, de forma que ele nunca achava o dinheiro quando precisava.
Dia e noite ela foi cavando trincheiras na guerra fria que era aquela convivência, avançando meio metro cada dia, deixando cada vez menos espaço para que ele pudesse viver e respirar. A filha de sete anos, que ele trouxera de outro casamento, era tratada com um misto de ódio e desprezo. Não que ela maltratasse a criança, pois era esperta demais para isso, mas destilava de forma mais sutil suas maldades. Uma delas era dar à criança tarefas e responsabilidades que ela sabia que não poderiam ser feitas, culpando depois a coitada pelo fracasso. Torturava a criança para atingir o pai. E a vida se tornava, cada dia, pior.
15/12/2010
08/12/2010
Era uma vez
Ele era um tanto quanto tolo e a mãe não confiava no moleque pra nada. Ela chegou a pensar em mandar ele ir na cidade vender a vaca que tinham, mas a mãe concluiu que ele era do tipo capaz de trocar uma vaca por feijões, achando que eram mágicos, como na história que todos conhecemos. Por fim, mandou o menino vender o belo cabelo comprido que tinha. Ia valer bem uns quinhentos reais numa casa de perucas, pensou a mãe, confiante no trocado que a permitiria sobreviver mais um mês. Nos tempos áureos ela recorreria às esquinas da Conselheiro Mafra, mas o tempo era impiedoso e ela já estava velha demais e não conseguia mais levantar uns cobres assim no fim do mês.
Então lá se foi o pobre do Hans num ônibus pro centro tentar negociar a venda de seu cabelo, cujas mechas finais ainda tinham aquele brilho dos cachos de bebês. Estava passando pela praça XV quando parou para fazer à figueira o pedido de conseguir uma boa grana pelos cabelos.
Um sujeito que ali lia o seu jornal, oportunista conhecido que trabalhava num gigantesco banco multinacional, ouviu tudo o que Hans dizia para a árvore e logo bolou o golpe. Se aproximou de forma gentil do menino e ofereceu que ele desse seu cabelo ao banco pela quantia 500 pilas, com a condição de que o negócio se desse no longo prazo. O menino deixaria a quantia no banco rendendo juros módicos de 9% ao ano por 60 anos, precisava pensar no futuro, preparar a aposentaria etc, etc, de forma que em 60 anos ele teria mais de 30 mil pila, ao invés de apenas 500. “Com esse dinheiro,” disse o sujeito do gigantesco banco, “você terá muito mais que o dinheiro do seu cabelo, mas o valor de uma dentadura de ouro. Você não quer trocar seu cabelo por dentes de ouro?”. A lábia matemática do retorno financeiro foi tão complicada e persuasiva, que Hans acabou aceitando e se deixando levar.
Hans chegou em casa todo satisfeito e careca, contando para a mãe da façanha que fizera e lhe garantira dentes de ouro na velhice. A mãe, chocada e irritada, amaldiçoou o filho por tal coisa e consolou-se com o fato de não ter mandado ele levar a vaca para vender.
O tempo foi passando depressa e a mãe de Hans por fim faleceu deixando ao filho o mundo de desgraças e miséria a que fora condenado. Tinha já quase setenta anos quando ia passando por um beco e quatro sujeitos lhe seguraram e o espancaram, arrebentaram todos os seus dentes e, no lugar, instalaram uma linda dentadura de ouro, saldando finalmente a dívida do banco com Hans. E viveram felizes para sempre.
Então lá se foi o pobre do Hans num ônibus pro centro tentar negociar a venda de seu cabelo, cujas mechas finais ainda tinham aquele brilho dos cachos de bebês. Estava passando pela praça XV quando parou para fazer à figueira o pedido de conseguir uma boa grana pelos cabelos.
Um sujeito que ali lia o seu jornal, oportunista conhecido que trabalhava num gigantesco banco multinacional, ouviu tudo o que Hans dizia para a árvore e logo bolou o golpe. Se aproximou de forma gentil do menino e ofereceu que ele desse seu cabelo ao banco pela quantia 500 pilas, com a condição de que o negócio se desse no longo prazo. O menino deixaria a quantia no banco rendendo juros módicos de 9% ao ano por 60 anos, precisava pensar no futuro, preparar a aposentaria etc, etc, de forma que em 60 anos ele teria mais de 30 mil pila, ao invés de apenas 500. “Com esse dinheiro,” disse o sujeito do gigantesco banco, “você terá muito mais que o dinheiro do seu cabelo, mas o valor de uma dentadura de ouro. Você não quer trocar seu cabelo por dentes de ouro?”. A lábia matemática do retorno financeiro foi tão complicada e persuasiva, que Hans acabou aceitando e se deixando levar.
Hans chegou em casa todo satisfeito e careca, contando para a mãe da façanha que fizera e lhe garantira dentes de ouro na velhice. A mãe, chocada e irritada, amaldiçoou o filho por tal coisa e consolou-se com o fato de não ter mandado ele levar a vaca para vender.
O tempo foi passando depressa e a mãe de Hans por fim faleceu deixando ao filho o mundo de desgraças e miséria a que fora condenado. Tinha já quase setenta anos quando ia passando por um beco e quatro sujeitos lhe seguraram e o espancaram, arrebentaram todos os seus dentes e, no lugar, instalaram uma linda dentadura de ouro, saldando finalmente a dívida do banco com Hans. E viveram felizes para sempre.
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