É ano eleitoral. É de novo aquela agitação no estômago da imprensa, em busca de novidades saídas diretamente das tripas do processo eleitoral.
Eu me lembro quando era criança, a primeira eleição pra presidente depois de duas décadas de ditadura. Em termos de política, infelizmente, a coisa sempre foi meio nebulosa lá em casa. Meu pai, por exemplo, achava que se um dos candidatos ganhasse o MST viria trazer quinze pessoas para morar em cada casa. O que o MST iria vir fazer na nossa casa é uma coisa que meu pai nunca se perguntou, ele parecia mesmo acreditar que o MST iria querer plantar alface nos doze metros quadrados do nosso quintal ao invés de cultivar uma dessas largas extensões de terra praticamente sem uso dos nossos latifúndios.
Mas isso era, também, reflexo dos medos que a ditadura deixou, que aos poucos vão sumindo. É a ideologia como substituto não só da moral, mas também da razão, que levava a classe média a votar desesperada naquilo que a tevê mandava. Mas como toda razão não fundamentada, ela se erode com o tempo, vítima de sua própria inconsistência.
A ditadura durou vinte e cinco anos, o tempo de uma geração, e completa agora vinte anos que nos livramos dela, o que deveria nos dar uma nova capacidade de estruturar a sociedade. O MST há muito já se estabeleceu e longe de querer vir pra cidade, criou grandes cooperativas no interior do país, gerando leite, grãos e todo tipo de alimento, o que mostra que longe de ser uma ameaça, é o mais claro exemplo de reforma social visando consolidar uma sociedade moderna no campo, longe dos modelos retrógrados herdados de nosso passado colonial. E digo isso como exemplo de que nossa percepção hoje em dia pode se basear mais nos dados da realidade do que naquelas sombrias ameaças de futuro que faziam a alegria dos semanários.
Estamos mais instruídos hoje. O número de miseráveis caiu pela metade na última década, o acesso à cultura e educação aumentou e, como conseqüência, já aprendemos que não podemos mais confiar na tevê para decidirmos. O povo não é bobo deixou de ser palavra de ordem e virou fato, deixando os grandes jornais e tevês do passado apavorados com a queda brutal de tiragem e audiência.
Há um ano atrás um desses veículos moribundos previu que um terço da população do país seria arrasada pela gripe suína. O povo apavorou, mas logo viu a mentira. O jornal publicou um nota sobre o erro uns três meses depois, achando que sairia impune. A queda brutal de suas vendas têm sido punição apropriada.
19/02/2010
11/02/2010
Como matei John Lennon
É engraçado, eu, como muitas pessoas, sou dado a certo espanto pelas coincidências, embora elas não sejam mais nada além do que a palavra diz, coincidências.
Mas acho que às vezes a gente pode ter um faro especial pra coisa e segue impulsos sem ter muita noção do que está fazendo. Às vezes dá certo, na maioria das vezes não, mas essa minoria de vezes que dá certo é o que fica gravado na nossa memória e nos espanta. É o caso clássico do experimento de Skinner e seus pombos religiosos.
Mas o fato é que fiquei com aquele livro por uns dez anos na fila pra ler e um dia deu na telha de ler. Li ele de um tapa só e fiquei estupefato e fui na internet procurar pelo autor, JD Sallinger, e descobri que ele acabara de morrer a apenas algumas horas.
Que coisa, porque tive que esperar pra ler o livro justo quando o cara estava no leito de morte? Nem sequer mandar um elogio pra ele eu posso mais.
O mais curioso do livro é que a maioria faz uma defesa do livro que dá vontade de vomitar e a gente pensa que nunca vai ler o livro. Dizem que é um livro sobre um adolescente voltando pra casa e retratando as angústias de um adolescente padrão.
Não poderiam estar mais errados. E é por isso que não entendem porque o cara que matou John Lennon se dizia inspirado no livro.
Eu sei que vou estragar para muita gente a grande graça do livro que é sacar isso, então parem de ler aqui se pretendem ler o livro num futuro próximo. O livro é na verdade o relato de um escritor de trinta anos, aprisionado no hospício, em meio a uma crise psicótica severa, que começa a desdobrar sua identidade em várias personalidades diferentes, sendo uma delas o próprio narrador do livro, Caufield, que parte numa jornada interagindo com essas pessoas reais ou não.
É simplesmente genial isso, grande lance de mestre do Sallinger e creio que a própria explicação dele do porque se retirava do convívio social após escrever o livro. Está tudo lá no romance, só que de forma tão disfarçada, que a maioria das pessoas vai ler o relato de Caufield sem perceber que o próprio Caufield é o delírio de um outro personagem secundário do livro, que é justamente a única pessoa que Caufield consegue ver no hospício. É tudo tão sutil que é de tirar o fôlego e ficamos mesmo com a sensação de que estamos enlouquecendo em pensar que o livro se trata disso, que estamos tendo uma grande ilusão paranóide do tipo teoria da conspiração.
O passo seguinte, é claro, é matar John Lennon, mas aí já é outra história...
Mas acho que às vezes a gente pode ter um faro especial pra coisa e segue impulsos sem ter muita noção do que está fazendo. Às vezes dá certo, na maioria das vezes não, mas essa minoria de vezes que dá certo é o que fica gravado na nossa memória e nos espanta. É o caso clássico do experimento de Skinner e seus pombos religiosos.
Mas o fato é que fiquei com aquele livro por uns dez anos na fila pra ler e um dia deu na telha de ler. Li ele de um tapa só e fiquei estupefato e fui na internet procurar pelo autor, JD Sallinger, e descobri que ele acabara de morrer a apenas algumas horas.
Que coisa, porque tive que esperar pra ler o livro justo quando o cara estava no leito de morte? Nem sequer mandar um elogio pra ele eu posso mais.
O mais curioso do livro é que a maioria faz uma defesa do livro que dá vontade de vomitar e a gente pensa que nunca vai ler o livro. Dizem que é um livro sobre um adolescente voltando pra casa e retratando as angústias de um adolescente padrão.
Não poderiam estar mais errados. E é por isso que não entendem porque o cara que matou John Lennon se dizia inspirado no livro.
Eu sei que vou estragar para muita gente a grande graça do livro que é sacar isso, então parem de ler aqui se pretendem ler o livro num futuro próximo. O livro é na verdade o relato de um escritor de trinta anos, aprisionado no hospício, em meio a uma crise psicótica severa, que começa a desdobrar sua identidade em várias personalidades diferentes, sendo uma delas o próprio narrador do livro, Caufield, que parte numa jornada interagindo com essas pessoas reais ou não.
É simplesmente genial isso, grande lance de mestre do Sallinger e creio que a própria explicação dele do porque se retirava do convívio social após escrever o livro. Está tudo lá no romance, só que de forma tão disfarçada, que a maioria das pessoas vai ler o relato de Caufield sem perceber que o próprio Caufield é o delírio de um outro personagem secundário do livro, que é justamente a única pessoa que Caufield consegue ver no hospício. É tudo tão sutil que é de tirar o fôlego e ficamos mesmo com a sensação de que estamos enlouquecendo em pensar que o livro se trata disso, que estamos tendo uma grande ilusão paranóide do tipo teoria da conspiração.
O passo seguinte, é claro, é matar John Lennon, mas aí já é outra história...
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