Walter era um dos meus melhores amigos na idade de oito anos, estudávamos juntos e ele sempre dormia na aula. Walter, eu chamava. Walter, acorda!
Um olho abria lentamente e espiava, logo abrindo o outro e começando a narrar a coisa mais absurda do mundo com a qual acabara de sonhar. Repetia esse ritual toda manhã na primeira aula. Era o único amigo de escola que me havia restado depois que os professores decidiram dividir a turma com quem eu andava no ano anterior entre as salas de aula pra dividir o grupinho. Talvez tenha começado com isso o ódio por aquele colégio que só aumentou durante minha vida. Ríamos alto da história maluca que ele contava e lá vinha a tia, furiosa, exigindo silêncio. Impedidos de falar, ficávamos apenas olhando para a frente, aquele corpo suave e juvenil de professora de primário. Tenho certeza que foi assim que Walter aprender a distinguir as partes da anatomia feminina por baixo das roupas, ensinando-me o truque anos mais tarde. Era uma saída de colégio ao meio-dia quando ele virou pra mim e confidenciou: a profi tem um cetão!
Bastou isso para que eu percebesse, um tanto quanto tardiamente, o mundo feminino ao meu redor e o fenômeno natural da pata-de-camelo. Logo, logo comecei eu também a desenvolver os poderes perceptórios que ele me ensinava e passava a aula inteira parado, olhando o corpo das professoras, sem copiar nada. Ouvia a voz que explicava a matéria tentando construir em meu cérebro frases de súplicas sensuais. Gostava daquilo, muito mais do que o antigo método de assistir aulas, embora minhas notas começassem a declinar. Somente meu amigo compartilhava comigo deste estranho poder que tínhamos e foi um golpe quando ele foi para outra escola. Passei a zanzar sozinho pelos corredores, agora usando as técnicas que eu aprendera com todas as garotas que via, não só professoras. O último poder secreto que meu colega me ensinara antes de partir foi o de perceber e decifrar teorias da conspiração e mensagens subliminares. Todos estão atrás de você, estão te observando, esperando um passo em falso, ele dizia, e para descobrir o que eles querem basta ler as mensagens ocultas que eles trocam, palavras escondidas que se formam com a primeira letra de cada frase.
Claro que aquilo isso já era loucura demais pra minha cabeça. O poder de superpercepção era legal, mas aquele lance de mensagens subliminares já era demais. Mais vale viver de olhos fechados do que abri-los para descobrir o terror e a loucura.
22/09/2010
15/09/2010
A arte de atropelar locomotivas
Eu costumava a acreditar que era eu quem tinha abandonado e desistido da televisão, dos jornalões emplumados e revistas semanais que se pretendem nacionais, mas só agora entendi que foi ao contrário, foram eles que desistiram de mim.
A conta é muito simples, é mais lucrativo investir num conteúdo simplório e de baixo custo, vendendo a uma parcela menor de consumidores, do que gastar dez vezes mais produzindo conteúdo decente para dobrar as vendas atingindo o consumidor que queira algum conteúdo. É um processo que se estende desde televisões que deixam de fazer programação pensada para executar programas de auditório e reality shows, que têm baixo custo e exigem apenas uma câmera na mão e nenhuma idéia na cabeça, até os jornais que substituíram o jornalismo por um exercício banal de denuncismo vazio: grampo sem áudio, vídeo sem imagem e por aí vai, qualquer coisa que os ajude a vender.
É um desespero agravado pela revolução digital. Todo novo meio de comunicação, quando surge, causa certo impacto nos demais, que vai se diluindo com o tempo. O rádio não acabou com o jornal, o cinema não acabou com o rádio, nem a tevê acabou com o cinema. Os meios tradicionais suportaram bem a internet que já chega agora ao fim da adolescência e se prepara para a maioridade.
Mas nos últimos anos, por uma série de erros de planejamento e decisões erradas das empresas de televisão e jornalismo, o processo se acentuou. Os jornais abandonaram os princípios do jornalismo para tentar manter o público que consideravam fiel, mas, com isso, aqueles que vendiam 1,5 milhão de cópias nos anos 90, agora vendem um décimo disso. São obrigados a distribuir exemplares de graça em postos de gasolina e shopping centers. Foram atropelados por jornais locais e pela difusão da informação em blogs e redes sociais. Antes eram os blogs que repetiam notícias de jornais, hoje é o contrário, são os jornais que repetem os blogs e twitters mais comentados.
A Gazeta Mercantil já fechou as portas. Agora é a vez do Jornal do Brasil, que passou a existir somente na internet. Os grandes jornalões restantes vivem basicamente de compras feitas por governos estaduais sem licitação, em troca, é claro, de apoio aos mesmos no período eleitoral. Coisa que vemos agora, em que sai um escândalo diferente por dia e nunca o conteúdo da matéria corrobora a denúncia na manchete.
Enquanto isso, a internet passa, pela primeira vez, a mídia tradicional no faturamento de publicidade. RIP.
A conta é muito simples, é mais lucrativo investir num conteúdo simplório e de baixo custo, vendendo a uma parcela menor de consumidores, do que gastar dez vezes mais produzindo conteúdo decente para dobrar as vendas atingindo o consumidor que queira algum conteúdo. É um processo que se estende desde televisões que deixam de fazer programação pensada para executar programas de auditório e reality shows, que têm baixo custo e exigem apenas uma câmera na mão e nenhuma idéia na cabeça, até os jornais que substituíram o jornalismo por um exercício banal de denuncismo vazio: grampo sem áudio, vídeo sem imagem e por aí vai, qualquer coisa que os ajude a vender.
É um desespero agravado pela revolução digital. Todo novo meio de comunicação, quando surge, causa certo impacto nos demais, que vai se diluindo com o tempo. O rádio não acabou com o jornal, o cinema não acabou com o rádio, nem a tevê acabou com o cinema. Os meios tradicionais suportaram bem a internet que já chega agora ao fim da adolescência e se prepara para a maioridade.
Mas nos últimos anos, por uma série de erros de planejamento e decisões erradas das empresas de televisão e jornalismo, o processo se acentuou. Os jornais abandonaram os princípios do jornalismo para tentar manter o público que consideravam fiel, mas, com isso, aqueles que vendiam 1,5 milhão de cópias nos anos 90, agora vendem um décimo disso. São obrigados a distribuir exemplares de graça em postos de gasolina e shopping centers. Foram atropelados por jornais locais e pela difusão da informação em blogs e redes sociais. Antes eram os blogs que repetiam notícias de jornais, hoje é o contrário, são os jornais que repetem os blogs e twitters mais comentados.
A Gazeta Mercantil já fechou as portas. Agora é a vez do Jornal do Brasil, que passou a existir somente na internet. Os grandes jornalões restantes vivem basicamente de compras feitas por governos estaduais sem licitação, em troca, é claro, de apoio aos mesmos no período eleitoral. Coisa que vemos agora, em que sai um escândalo diferente por dia e nunca o conteúdo da matéria corrobora a denúncia na manchete.
Enquanto isso, a internet passa, pela primeira vez, a mídia tradicional no faturamento de publicidade. RIP.
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