Anseio pelo brilho do vidro, a velocidade leve do silício, o rangido pungente de chapas de aço que se rasgam. Anseio pelo riso de crianças turbinadas com 100 Megawatts, o raio que fulminará minhas carnes com o som e fúria de que Shakespeare nos falava, o menestrel que virá à cidade trazendo a peste, ou a morte da máscara rubra de Poe.
Respiro os lixos que saem das máquinas que nos dão autonomia de deslocamento, chumbo, enxofre e gritos de horror. Respiro os lixos que saem das pessoas em esgotos e lixeiras e poeira da rua, suores e excrementos, os pensamentos alucinados que escoam pelas esquinas e recantos sujos deste espaço urbano.
Cérebro e osso e olhos e víscera e tudo mais em sua simplicidade profunda. Pedaços de carvão amontoado e misturado com água, numa combinação muito particular, onde o arranjo do sistema, a relação entre cada molécula, é mais importante que o material que a constitui.
Supernovas que explodem a cada minuto em silêncio mudo e distante a milhões de anos luz, potentes como os girassóis vespertinos de Bukowski. Nebulosas parindo milhares de estrelas, soltas no espaço como girinos na água, a grande maioria destinada a uma morte prematura.
Corro pelas cidades e metrópoles e corpos e planetas atravessando a todos como neutrinos em rota de trânsito pela terra e navego no vento solar competindo com a luz em uma corrida fadada ao fracasso. Corro com moléculas voláteis e sinto o prazer em devorar partículas que não existem por mais que frações de segundos.
Mergulho em direção da vertigem e da cachoeira, o jorro de idéias e pessoas e filamentos de carbono, ácidos, aminoácidos e proteínas, nucleotídeos, peptídeos, feromônios e matrimônios. Mergulho em direção ao pósitron e ao antipróton que me aguardam pacientes para o confronto final, a aniquilação mútua de matéria e antimatéria.
Escombros de civilizações entulhados no ferro velho da história, como o império caído de Ozymandias, de Percy Shelley, ou as ruínas de uma antiga civilização lovecratiana com seus altares a Ctulhu ou Nyarlathotep. Pilhas de corpos árabes empilhados em chamas na nova cruzada moderna ocidental.
Descanso enfim no ocaso dos tempos e na escuridão inerte das tumbas há muito enterradas e soterradas. Descanso nas minas abandonadas e lagos subterrâneos e aquíferos onde a vida bacteriana segue não perturbada, meus fragmentos de corpo em distensão relaxada e meus pedaços de informação espalhados, enfim, na rede biosférica.
25/11/2010
17/11/2010
O velho vestibular
As eleições mal acabaram e a campanha pra 2014 já começou. É o novo paradigma da propaganda política, a criação de uma crise permanente, seja ela fundada em bases reais ou não. A bola da vez agora é tentar prejudicar mais de três milhões de estudantes anulando uma prova que fizeram apenas para desgastar o governo. Ano passado já fizeram isso, curiosamente o jornal que publicou a prova vazada era a mesma empresa dona da gráfica que deixou vazar o conteúdo. Coincidências, é claro.
Nessa guerra de informações vale tudo, até mesmo pegar uma frase qualquer de uma autoridade e fazer um artigo inteiro para dar um sentido inverso. É impressionante mesmo, Fausto Wolff estava certo sobre o romance de Orwell, estamos vivendo o 1984 desde 1964. Na histeria do momento não falta quem queira cancelar o modelo de avaliação nacional, similar ao feito na Alemanha e EUA, e voltarmos para o antigo sistema do vestibular apenas.
Ah, sim, doces memórias do vestibular. Lembro que o grande truque era se inscrever naqueles aulões de fim de ano, onde todo o conteúdo era condensado em 20 dias de aula. E os professores eram aclamados como verdadeiros gênios porque “adivinhavam” as questões do vestibular, um misto de ensino científico e xamanismo premonitório.
É claro que ninguém mais é criança e podemos parar de brincar nessa história. Os professores de cursinho são contratados pelas universidades para redigir questões de vestibular, daí vem o seu dom premonitório: o aluno que paga recebe dele a informação privilegiada sobre as questões que cai. É claro que eles não podiam admitir que estavam violando o sigilo da prova, então vinham com papos divertidíssimos de sonhos mediúnicos e passavam no quadro questões inteiras do vestibular, palavra por palavra, cada alternativa, com a devida resposta.
Era um esquema que todos gostavam. Os cursinhos porque faturavam, os alunos porque ganhavam uma vantagem indevida sobre outros candidatos e os professores porque viravam gênios do saber. Depois era divertido ver ainda os cursinhos que se vangloriavam da aprovação dos seus alunos, sem mencionarem, é claro, o crime federal que cometiam vazando questões da prova para os mesmos.
É certo que a fraude começa a patinar no momento em que surge um exame nacional que desarticula todos esses arranjos locais de corrupção. Não é, portanto, de se estranhar que o exame desagrade e cause movimentações tentando exterminá-lo para o retorno ao velho esquema. Ah, o saudosismo!
Nessa guerra de informações vale tudo, até mesmo pegar uma frase qualquer de uma autoridade e fazer um artigo inteiro para dar um sentido inverso. É impressionante mesmo, Fausto Wolff estava certo sobre o romance de Orwell, estamos vivendo o 1984 desde 1964. Na histeria do momento não falta quem queira cancelar o modelo de avaliação nacional, similar ao feito na Alemanha e EUA, e voltarmos para o antigo sistema do vestibular apenas.
Ah, sim, doces memórias do vestibular. Lembro que o grande truque era se inscrever naqueles aulões de fim de ano, onde todo o conteúdo era condensado em 20 dias de aula. E os professores eram aclamados como verdadeiros gênios porque “adivinhavam” as questões do vestibular, um misto de ensino científico e xamanismo premonitório.
É claro que ninguém mais é criança e podemos parar de brincar nessa história. Os professores de cursinho são contratados pelas universidades para redigir questões de vestibular, daí vem o seu dom premonitório: o aluno que paga recebe dele a informação privilegiada sobre as questões que cai. É claro que eles não podiam admitir que estavam violando o sigilo da prova, então vinham com papos divertidíssimos de sonhos mediúnicos e passavam no quadro questões inteiras do vestibular, palavra por palavra, cada alternativa, com a devida resposta.
Era um esquema que todos gostavam. Os cursinhos porque faturavam, os alunos porque ganhavam uma vantagem indevida sobre outros candidatos e os professores porque viravam gênios do saber. Depois era divertido ver ainda os cursinhos que se vangloriavam da aprovação dos seus alunos, sem mencionarem, é claro, o crime federal que cometiam vazando questões da prova para os mesmos.
É certo que a fraude começa a patinar no momento em que surge um exame nacional que desarticula todos esses arranjos locais de corrupção. Não é, portanto, de se estranhar que o exame desagrade e cause movimentações tentando exterminá-lo para o retorno ao velho esquema. Ah, o saudosismo!
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