A tinta da melancolia não é difícil antever, é um sublime louvor ao nosso ilustre finado. Ruínas dos tempos que a imaginação dessa senhora também voou, porque esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim a minha idéia mor, e foi então que imaginou as trezentas cubas mouriscas com os seus caprichos de dama elegante. Excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge. Nenhum de nós expeliu o passado.
Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste doce. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; vi-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher impressa num volume, encadernada em marroquim, com fechos de prata: reflexões de cérebro enfermo, uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã.
Comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. No caminho, a planície voava debaixo dos nossos pés, até que, nem a imaginação nem a ciência, e o seu cortejo de sistemas, brincava à porta da alcova. Queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia.
O animal de uma escrava sentou-se. Terça-feira de março, dia claro, luminoso e puro. Não tivemos uma vida comum porque me negara uma colher de educação. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência. A consumação das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração. De quando em quando um riso esperando que fosse a última, mas não era.
Não sei nada; sei que desci, quebrei a cabeça dos modernos, entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações. A verdade é que Marcela não possuía a inocência. Reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo, conchegou-me ao seio e sacudiu-mos na cara.--Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar.
Depois, levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou com um sistema inteiramente superior ao sistema usado. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos na poesia e sussurrou-me baixo: Que importava a mim o destino de uma mulher tísica, cabelo arrepiado e longo?
Falei-lhe dos versos, que me lera, o naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político que morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.
Toda a má impressão se desvaneceu, confessou-me que era uma velha e essa circunstância era-lhe infeliz. Expirou dentro de alguns segundos. A natureza é às vezes um imenso escárnio, a morte não tinha a compostura da mulher casada.
03/02/2011
02/02/2011
Eu monstro meu
Não sei como às vezes me entedio em meio ao orgasmo contínuo de notícias sensacionais nos dias correntes. Desde a invenção do transistor e baterias de papel ao último porre de Charlie Sheen, chega um ponto em que todos os jornais parecem vazios e as coisas desinteressantes e até mesmo nossa cara teia mundial parece já esgotada, com seu eu tivesse, de uma só tacada, lido todos os seus 5 mil Petabytes, ou meros 5 Exabytes (e crescendo).
A literatura é a única chance de salvação da enxurrada de informações. Fico me agarrando ao texto de autores mortos, tentando destrinchar, analisar, descobrir porque aquelas combinações tão efêmeras de palavras fazem um treco tão bom. Fico tentado a criar meu próprio monstro junto os melhores trechos de história de autores como Kafka, Dostoievski e Poe. Algo que eu jamais faria, é claro.
Isso porque, certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, vi-me transformado num gigantesco inseto. Era começo de julho, num tempo extremamente quente e caminhei devagar, rumo à ponte, precisando esgueirar-me pelos degraus da pensão para evitar encontrar com a dona da casa. Porém, quando ela ousou insultar-me, jurei vingança. Não deveria apenas vingar-me, mas vingar-me impunemente.
Esse pensamento, no entanto, logo se dissipou flutuando entre divagações e fastios de uma mente entediada flanando por aí. Pensei nas grandezas estelares e lembrei que o conceito já não era mais usado há alguns séculos, pois o brilho que vemos de uma estrela aqui na terra não é indicativo do seu tamanho, uma vez que temos que levar a distância em conta. Sem falar nos buracos negros, nos centro das galáxias, invisíveis, porém com uma massa gigantesca. E nenhum buraco negro terá um dia grandeza maior que aquele de Bobbi Starr.
Acalentei-me então com estes pensamentos enquanto os últimos fios de luz solar se extinguiam na superfície da cidade e as sombras alongadas davam vazão ao alongamento passional de uma melodia mental. Não! Era algo que eu certamente jamais faria, uma palavra sequer, muito menos uma frase ou sentença de qualquer mestre literário, jamais eu ousaria usá-las e me apropriar delas, como um ladrão barato que toma dos outros a roupa no varal e as sai usando. Essa determinação me deixava no problema de faltas de palavras a usar, ainda assim minha decisão era irrevogável.
E foi por isso que me levaram à pedreira e me esfaquearam, como um cão, eu disse, e minha sombra, daquela sombra, se soltará nunca mais.
A literatura é a única chance de salvação da enxurrada de informações. Fico me agarrando ao texto de autores mortos, tentando destrinchar, analisar, descobrir porque aquelas combinações tão efêmeras de palavras fazem um treco tão bom. Fico tentado a criar meu próprio monstro junto os melhores trechos de história de autores como Kafka, Dostoievski e Poe. Algo que eu jamais faria, é claro.
Isso porque, certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, vi-me transformado num gigantesco inseto. Era começo de julho, num tempo extremamente quente e caminhei devagar, rumo à ponte, precisando esgueirar-me pelos degraus da pensão para evitar encontrar com a dona da casa. Porém, quando ela ousou insultar-me, jurei vingança. Não deveria apenas vingar-me, mas vingar-me impunemente.
Esse pensamento, no entanto, logo se dissipou flutuando entre divagações e fastios de uma mente entediada flanando por aí. Pensei nas grandezas estelares e lembrei que o conceito já não era mais usado há alguns séculos, pois o brilho que vemos de uma estrela aqui na terra não é indicativo do seu tamanho, uma vez que temos que levar a distância em conta. Sem falar nos buracos negros, nos centro das galáxias, invisíveis, porém com uma massa gigantesca. E nenhum buraco negro terá um dia grandeza maior que aquele de Bobbi Starr.
Acalentei-me então com estes pensamentos enquanto os últimos fios de luz solar se extinguiam na superfície da cidade e as sombras alongadas davam vazão ao alongamento passional de uma melodia mental. Não! Era algo que eu certamente jamais faria, uma palavra sequer, muito menos uma frase ou sentença de qualquer mestre literário, jamais eu ousaria usá-las e me apropriar delas, como um ladrão barato que toma dos outros a roupa no varal e as sai usando. Essa determinação me deixava no problema de faltas de palavras a usar, ainda assim minha decisão era irrevogável.
E foi por isso que me levaram à pedreira e me esfaquearam, como um cão, eu disse, e minha sombra, daquela sombra, se soltará nunca mais.
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