12/03/2011

Meu mundo cão

Eu não sei se é uma boa qualidade saber aceitar a derrota ou insistir teimosamente e fracassar ainda mais. Militarmente ambas as opções são válidas, mas são restritas apenas por uma questão de hierarquia. Ao bom soldade é valoroso nunca desisitir, mesmo frente à derrota, e morrer com bravura estraçalhado pelas granadas e metralhadoras inimigas, mesmo que o combate seja, à priori, uma morte certa, ordenada pelos superiores apenas para distrair o inimigo de outra operação em andamento.
Já o para o bom general ou oficial é o contrário, o valoroso é perceber quando a guerra está inevitavelmente perdida e saber jogar a toalha, declarar a rendição antes que o número de mortes entre soldados e civis aumente exponencialmente.
A diferença, então, entre ceder ao fracasso e morrer teimosamente é uma opção de classe, de hirarquia social, aos de baixo só resta a morte enquanto os do topo podem se dar ao luxo de fracassar e desfrutar das condições especiais de encarceramento para oficiais rendidos ao longo de toda a guerra.
Não é justo, eu sei, mas ninguém realmente acreditou que seria.
O problema maior começa, mesmo, quando estamos no fundo do poço da hierarquia social e percebemos que tudo que fizemos ao longo da vida redundou em fracasso. Você já andou tempo demais por aquele caminho para que seja viável voltar atrás, você morreria de velhice antes mesmo de voltar e conseguir escolher outra estrada. Só resta ficar andando em meio à poeira abandonada, rumando ainda mais ao fundo do abismo, ou sentar e puxar um palheiro e uma pinga e esperar o tempo passar.
Eu fico em dúvida se meu problema é porque fiquei tempo demais sem fazer nada aceitando o fracasso de minhas opções ou, pelo contrário, porque passei tempo demais sem perceber o fracasso e insistindo ainda mais em caminhar para aquele abismo final do qual não há saída nem fim.
Não é muito animador, eu sei, mas eu não achei que seria.
Acho que, no fim das contas, a regra do jogo é beneficiar o jogador profissional, aquele que está lá para vencer e obter o lucro máximo com o menor custo e tentar, à toda força, afundar aquele sujeito que não está nem aí para o jogo. Não adianta você explicar pacientemente que não quer jogar, que está mais preocupado com a guerra civil na Líbia e o levante trabalhista de Madison do que com o salário no fim do mês, pois eles baterão à sua porta, derrubarão sua casa, exigirão pontos de currículo ou de engenharia social. Exigirão que você jogue.
Nada funcionou, é verdade, mas eles acharam que iria.

03/03/2011

Na saia da infância

O que aconteceu com a minissaia? Hoje em dia é tão raro ver alguém usá-la. Símbolo máximo do poder e da liberação feminina que veio com a segunda onda do feminismo na década de 1960 (a primeira onda pelo direito de votar, no século XIX, e a terceira sobre as relações culturais de raça e classe, nos 1980 e 90), foi ela que me estimulou desde a infância ao feminismo precoce e à crença de que eu vivia numa época especial, que a tendência de futuro eram as roupas encolherem cada vez mais.
Mas, desde então, o que aconteceu? Nada. Pior que nada: retrocesso. As roupas voltaram a crescer e tapar tudo e aquele sonho de infância que eu nutria para minha vida adulta ruiu junto. É claro que há um lado bom na história, porque aqueles shortinhos masculinos justíssimos também sumiram, então não preciso mais andar por aí com minhas coxas à mostra, e pior, tendo que vislumbrar a coxa alheia.
Mas voltemos ao foco da minissaia, que é assunto mais agradável que as coxas de outrem. O fato é que ainda nos anos 80 lembro dela causando certo escândalo e sensacionalismo em nossa imprensa, embora no exterior ela já tivesse se consolidado muito tempo antes. Em 1972, até o conde Drácula mergulhava de cabeça na minissaia com o filme clássico da Hammer, estrelando Christopher Lee como Drácula e Peter Cushing como Van Helsing, é claro, que por aqui ganhou a bela tradução de “Drácula no Mundo da Mini-Saia”. Aliás, nosso Zé do Caixão não deixava por menos por aqui e não faltavam minissaias em seus belos filmes da época.
A minissaia padeceu dos males da moda. Ao invés de se fincar como tendência irreversível, foi só mais um modismo que passou e pouco se vê pelas ruas, retirou-se ao ambiente de boates. Quando por sorte avistamos alguma na rua, geralmente carrega consigo as marcas de época de quando esteve no auge, isto é, a pessoa que a usa é porque foi jovem nos anos 60 e ainda hoje recorre ao velho vestido de guerra. Se já se tem a dificuldade de a portadora da mini-saia normalmente estar acima dos cinquenta, acresce ainda nestes tempos de carnaval que a maioria das pessoas com minissaia é homem.
Tristes tempos esses em que até o carnaval foi vítima do retrocesso nos costumes e já não se vê mais seios à mostra nem gente sem roupa dançando na rua ou passarela. Foi algo que perdemos no caminho, a perda daquela inocência alegre de andar sem roupas. A ir nesse ritmo ficará melhor o Mardi Gras, o carnaval de Nova Orleans, onde se consolida a tradição de levantar a blusa por um colar de contas.