25/08/2010

Mês do desgosto

A bala saiu da pistola com um estampido seco, furando o pijama listrado, atravessando o peito e o coração, matando com pressa. Já se vão lá 56 anos e o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954 continua assombrando a memória nacional.
É como uma espécie de sebastianismo às avessas, aquela frase famosa de sua carta testamento de que deixa a vida para entrar na história acabou por se transformar em uma ameaça contra seus opositores, como o fantasma que vem puxar o lençol da cama de seu desafeto. Finda a vida para se perpetuar na memória como mito, como eterna vingança contra seus oponentes, que ao revidar precisam desferir socos inúteis em fantasmas intangíveis.
E convenhamos que, como mito fundador da nacionalidade, é algo muito mais interessante que um sujeito diletante em calças coloridas e ares entediados que pára na beira de um córrego e, num arremedo patético da história americana, copia aquela frase famosa dita por Patrick Henry, em 1775, ao convencer o segundo maior estado americano da época, a Virginia, a entrar na luta pela independência: “dê-me liberdade ou dê-me a morte!”
O suicídio de Getúlio, senão por qualquer outro motivo, já é infinitamente mais interessante como mito fundador simplesmente por se tratar de uma história original, um drama autêntico, não uma repetição farsesca macaqueada de outras nações.
Mas acresce aí o fato de que a personagem é também das mais complexas, que com aquele suicídio conseguiu sair da posição de carrasco ditador para vítima e mártir da nação. É o paradoxo pulsante na história, como sempre foi em nosso país, desde os abolicionistas donos de escravos.
Mais que isso, ao contrário do mito português do sebastianismo, em que esse rei vive e voltará para ajudar o povo português, o mito de Vargas se fundou na premissa oposta, de que o homem morre mas o mito permanecerá para sempre.
E demorou quarenta anos para que os sucessores da UDN, mesmo tendo dado o golpe em 64, resolvessem se insurgir contra o legado de Vargas e tentar matá-lo pela segunda vez, destruindo o estado nacional, sucateando e vendendo as empresas criadas por Vargas, eliminando por fim os direitos trabalhistas que aquele criara.
Eu não acredito em fantasmas, mas há de se convir que esse anda assustando por aí. Na década seguinte ele deu o troco, fazendo o Estado getulista triunfar em meio à crise econômica em agosto de 2008 e agora, em agosto de 2010, vindo dar o tiro de misericórdia naqueles que pretenderam matá-lo. Um assombro!

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